A boa governança no Executivo federal demanda integração entre liderança, estratégia e controle, nos termos dos referenciais do TCU, com a auditoria interna posicionada como mecanismo de governança. Na prática, isso requer: papéis e responsabilidades formalmente definidos, gestão de riscos orientada à estratégia institucional e avaliação periódica da efetividade da auditoria interna segundo o referencial técnico da CGU.

Governança e gestão: delimitação de papéis

  • Alta administração (governança): dirige, monitora e avalia; define objetivos e tolerâncias a risco; estabelece estruturas decisórias e incentivos; presta contas às partes interessadas.
  • Gestão (execução): planeja, implementa e controla operações; mantém controles internos; informa desempenho e riscos.
  • Auditoria interna: avalia e aconselha, com independência organizacional e objetividade; examina governança, riscos e controles; reporta-se diretamente à alta administração e ao colegiado de governança.
  • Órgãos de integridade e controle (correição, ética, integridade, ouvidoria): compõem a segunda linha do modelo das três linhas, reduzindo assimetrias de informação e fortalecendo conformidade.

Arquitetura decisória e documentos essenciais

  • Modelo de governança formalizado (estatuto/portaria): instâncias decisórias, fluxos de reporte, segregação de funções e critérios de priorização.
  • Comitê de governança, riscos e controles: pauta estratégica, monitoramento de riscos-chave, acompanhamento de planos de ação e recomendações de auditoria.
  • Políticas institucionais: gestão de riscos, integridade, transparência e gestão de pessoas; integração com planejamento, orçamento e contratações.
  • Estatuto da auditoria interna, manual metodológico e plano anual baseado em riscos, alinhados ao referencial técnico da CGU.

Gestão de riscos orientada à estratégia

A Instrução Normativa Conjunta MP/CGU nº 01/2016, nos termos vigentes, impulsionou práticas de riscos no Executivo federal. A operacionalização deve:

1) Ancorar-se nos objetivos estratégicos e no mapa de valor da instituição.

2) Definir apetite e limites de tolerância a riscos, aprovados pela alta administração.

3) Adotar taxonomia comum, registro de riscos e critérios de avaliação de impacto/probabilidade.

4) Planejar respostas (aceitar, reduzir, compartilhar, evitar) e designar responsáveis.

5) Estabelecer controles-chave e indicadores de risco (KRIs) com gatilhos de reporte.

6) Integrar riscos a orçamento, contratações e projetos estratégicos.

7) Reportar periodicamente ao comitê e divulgar informações de transparência compatíveis com a natureza dos riscos.

Integração riscos-controles-auditoria: o modelo das três linhas

  • Primeira linha: gestores de processos, proprietários de risco e de controles.
  • Segunda linha: integridade, controles internos, gestão de riscos e conformidade.
  • Terceira linha: auditoria interna, com planejamento baseado no mapa de riscos e coordenação de assurance para evitar lacunas e sobreposições.

Ferramenta prática: mapa de assurance que cruza riscos estratégicos com coberturas (auditoria, inspeções, monitoramentos e avaliações), evidenciando quem assegura o quê e com que periodicidade.

Diretrizes do TCU: liderança, estratégia e controle na prática

  • Liderança: formalizar o modelo de governança; promover integridade e capacidade de liderança; critérios transparentes de nomeação e avaliação de dirigentes.
  • Estratégia: gerir riscos vinculados a objetivos; comunicar desdobramentos para todas as unidades; monitorar metas e funções de gestão com indicadores claros e tempestivos.
  • Controle: fortalecer transparência ativa e passiva; aferir satisfação das partes interessadas; avaliar a efetividade da auditoria interna como mecanismo de governança.

Perguntas de diagnóstico úteis: os principais riscos estratégicos têm responsáveis, KRIs e planos ativos? As recomendações críticas têm prazos e impactos mensurados? A alta administração discute riscos e auditoria em pauta recorrente?

Referencial técnico da auditoria interna (CGU): implicações práticas

  • Independência e reporte: acesso direto à alta administração e proteção contra interferências no escopo, recursos e conclusões.
  • Planejamento baseado em riscos: universo de auditoria mapeado por processos, projetos e temas transversais (integridade, TI, compras, pessoas).
  • Execução e qualidade: metodologia padronizada, supervisão técnica e programa de garantia e melhoria da qualidade.
  • Acompanhamento de recomendações: classificação por criticidade, prazos e validação de implementação.
  • Atividades de consultoria: focadas em mitigação de riscos e desenho de controles, sem assumir responsabilidades de gestão.

Avaliar a efetividade da auditoria interna

Critérios recomendados:

  • Cobertura de riscos: percentual de riscos estratégicos tratados por trabalhos de auditoria.
  • Implementação de recomendações: taxa e tempo de implementação, por criticidade.
  • Tempestividade: prazo entre encerramento de campo e emissão do relatório; atendimento ao plano anual.
  • Qualidade técnica: aderência metodológica e resultados de avaliações internas/externas de qualidade.
  • Valor público: benefícios estimados, redução de riscos residuais e melhorias de desempenho; percepção da alta administração e partes interessadas qualificadas.
  • Salvaguardas de independência: ausência de conflitos e estabilidade orçamentária mínima para a função.

Recomendações práticas por público-alvo

Alta administração:

  • Aprovar estatuto de governança, políticas de riscos e integridade e o estatuto da auditoria interna.
  • Estabelecer apetite a risco e agendas regulares de monitoramento estratégico.
  • Garantir recursos e autonomia técnica da auditoria; exigir avaliação periódica de efetividade.

Unidades de auditoria interna:

  • Atualizar o universo de auditoria e o plano anual com base no perfil de riscos.
  • Construir mapa de assurance e matriz de materialidade; priorizar temas transversais (integridade, TI, contratações e pessoas).
  • Fortalecer o acompanhamento de recomendações com análises de benefício-risco.
  • Implementar programa de qualidade e trilha de capacitação técnica.

Gestão (primeira e segunda linhas):

  • Designar proprietários de risco e manter registros e KRIs atualizados.
  • Integrar riscos a planejamento, orçamento e aquisições; evidenciar controles-chave.
  • Responder tempestivamente a recomendações e comprovar efetividade de planos de ação.

Transparência e integridade como alicerces de controle

Transparência ativa e passiva, gestão de conflitos de interesse, prevenção a nepotismo, mecanismos de correição e programas de integridade reduzem assimetrias de informação, favorecem accountability e sustentam a efetividade do modelo de governança.

Roteiro objetivo de implementação

1) Formalizar instâncias e documentos-base (governança, riscos, integridade e auditoria).

2) Definir objetivos estratégicos e apetite a risco.

3) Mapear riscos estratégicos e operacionais prioritários.

4) Aprovar plano anual de auditoria baseado em riscos e mapa de assurance.

5) Estabelecer KRIs, metas e rotinas de reporte ao comitê.

6) Integrar riscos ao ciclo orçamentário e de contratações.

7) Operar o acompanhamento de recomendações e divulgar resultados de forma transparente.

8) Realizar avaliação periódica da efetividade da auditoria e ajustes de rotas.

Ao alinhar liderança, estratégia e controle com a gestão de riscos e uma auditoria interna efetiva, a organização pública aumenta a probabilidade de entregar valor à sociedade, reduzindo desvios de propósito, desperdícios e assimetrias informacionais de forma sustentável e verificável.

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